Milhares de pessoas participaram de um ato pela democracia e pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no parque da Redenção, em Porto Alegre, no domingo (18 de outubro de 2026). O relato da cobertura da mobilização registra música, palavras de ordem e a presença de uma multidão.
A atividade integrou a agenda nacional de atos na semana que antecedeu o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro de 2026. A concentração começou pela manhã no Largo Zumbi dos Palmares, de onde os participantes caminharam até a Redenção.
Movimentos sociais e sindicais, parlamentares gaúchos, artistas e outros manifestantes estiveram na mobilização. O Ato Musical pela Democracia reuniu participantes de diferentes setores na capital gaúcha.

As falas e apresentações abordaram cultura, direitos sociais, soberania e memória da ditadura militar. Entre as atividades, o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz apresentou uma performance sobre desaparecidos políticos.
Caminhada e ato musical reuniram movimentos e apoiadores
A abertura do Ato Musical pela Democracia ficou a cargo do Bloco da Laje. A programação reuniu artistas e representantes de movimentos sociais e sindicais, parlamentares gaúchos e outros participantes, com a cultura presente nas manifestações políticas.
O ato pela democracia em Porto Alegre fez parte das mobilizações realizadas na semana anterior ao segundo turno presidencial, previsto para 25 de outubro de 2026. A agenda local também incluiu atividades em outros dias: em 17 de outubro, ocorreram o Ato Mulheres com Lula e o Corre com Lula.
Para 19 de outubro, estava prevista uma atividade de campanha com Lula no Centro Histórico. A concentração foi anunciada para as 16h, no Largo dos Açorianos, junto à avenida Borges de Medeiros.
Artistas defenderam cultura e democracia como formas de resistência
Mari Martinez, integrante do movimento Cultura com Lula, relacionou a mobilização à organização popular e à defesa da democracia. Ela afirmou que a cultura estava no centro do ato, mas destacou o protagonismo do povo organizado e defendeu a reeleição de Lula.
Ao tratar da disputa eleitoral, Martinez contrapôs os projetos políticos em debate e criticou a família Bolsonaro, a quem atribuiu corrupção, destruição e desmonte de serviços públicos. Sobre as políticas culturais, citou a recriação do Ministério da Cultura no início do mandato de Lula e disse que artistas haviam sido perseguidos e que a Lei Rouanet e a Fundação Palmares tinham sido desmontadas anteriormente.
O músico Frank Jorge descreveu a manifestação como uma defesa da democracia, da diversidade e da ciência. Ele também declarou orgulho de participar do ato em Porto Alegre ao lado de outros músicos e artistas.
Marietti Fialho, cantora com 36 anos de atuação, apresentou a cultura como espaço de resistência e parte da qualidade de vida. Nascida durante a ditadura e criada na zona norte da capital gaúcha, ela disse que a multidão reunida na Redenção lhe trouxe emoção e pediu que a juventude valorize as lutas por direitos, estude e defenda igualdade e liberdade de expressão com respeito.
Representantes da cultura periférica destacaram políticas culturais
A rapper porto-alegrense Negra Jaque afirmou que a defesa da cultura se conecta a lutas por saúde e por direitos de diferentes comunidades. Para ela, artistas ao lado da população ajudam a reivindicar a garantia desses direitos.
Jaque criticou a alternativa política representada por Bolsonaro, associando-a a cortes de direitos, desqualificação de pessoas e violência. Também rejeitou a ideia de uma única religião para um país diverso e afirmou que essa visão não a representava.
Ao mencionar políticas culturais dos governos do PT, a rapper citou os Pontos de Cultura, iniciativas digitais e fomentos que, segundo ela, fortaleceram bases culturais e levaram centros culturais às comunidades. Artista de rua ligada ao hip hop e à periferia, Jaque relacionou essas políticas à própria trajetória.
Paulo Romeu da Cruz Deodoro, conhecido como Paulinho e fundador do Afro-Sul Odomodê, grupo com mais de cinco décadas de existência, descreveu a cultura como parte da educação e da saúde. Ele defendeu a participação dos trabalhadores na disputa eleitoral e afirmou que a mobilização deveria contribuir para virar o resultado, além de manifestar preocupação com a violência política e seus possíveis efeitos sobre famílias e a população negra.
Olívio Dutra relacionou democracia, participação popular e soberania
O ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra, do Partido dos Trabalhadores (PT), defendeu um modelo de desenvolvimento em que a população fosse a principal beneficiária. Para ele, os diferentes setores da economia precisariam avançar de forma articulada para que os resultados chegassem às pessoas.
Dutra alertou para o risco de novas tentativas de golpe e criticou a influência do imperialismo na política brasileira. Ao comparar ameaças atuais com episódios anteriores, mencionou o golpe de 1964 e a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, que, segundo ele, foi impedida pelo povo.
Na convocação à militância, o ex-governador relatou encontrar apoiadores na capital, nas periferias, nos bairros e no interior do Rio Grande do Sul. Defendeu a eleição de Lula pela quarta vez à Presidência e apresentou o presidente como alguém de origem operária que mantém vínculo com a classe trabalhadora.
O ex-governador sustentou que a democracia deve ser fortalecida pela participação popular e estar presente tanto na Constituição quanto no cotidiano. Também contrapôs a um projeto de paz e convivência os setores que, segundo ele, apoiaram a ditadura e tratam torturadores como heróis; ao fim da intervenção, declamou o poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, de Bertolt Brecht, sobre trabalhadores apagados das narrativas de grandes construções e vitórias.
Performance retomou a memória de desaparecidos políticos da ditadura
Tânia Farias, atriz, diretora e atuadora do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, relacionou a memória da ditadura militar à defesa de um país mais justo e solidário. Ela lembrou que pessoas perseguidas, presas, torturadas, mortas ou desaparecidas por defender esse projeto ainda não tiveram seus restos mortais entregues às famílias.
Durante o ato, o grupo apresentou “Ação nº 2”, performance sobre desaparecidos políticos, em frente aos arcos da Redenção. Farias afirmou que a lembrança dessas pessoas era especialmente relevante diante da possibilidade de, segundo ela, perder a democracia em uma eleição.
A artista relatou que, em apresentações realizadas aos domingos, o público lia microbiografias de desaparecidos políticos distribuídas pelo chão e compartilhava reflexões sobre a conjuntura. Ela também advertiu que uma vitória da extrema direita, junto a uma maioria parlamentar desse campo, poderia enfraquecer espaços institucionais de defesa de direitos de mulheres, pessoas negras e periféricas e da comunidade LGBTQIAPN+.
Manifestantes falaram sobre direitos e a disputa eleitoral
Marcela Azevedo, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), explicou que a organização decidiu pelo voto crítico em Lula, embora mantivesse oposição de esquerda aos governos petistas. Ela criticou a conciliação com a burguesia e ataques aos trabalhadores, mas avaliou que um governo de Bolsonaro e da extrema direita poderia restringir o direito de criticar, organizar manifestações e mobilizar trabalhadores e jovens.
A estudante indígena Gabriele Salles do Nascimento, de Psicologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), integra o território Kaingang Fag Nhin, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre. Cotista na universidade, ela associou a disputa eleitoral aos direitos indígenas, à demarcação de territórios e à necessidade de ampliar a mobilização para além das ruas e buscar votos.
Bruna Henke, enfermeira com 15 anos de atuação na saúde, participou da manifestação após a experiência de trabalho durante a pandemia de covid-19. Ela relatou dificuldades no atendimento e falta de apoio a profissionais e pacientes, e disse que não queria reviver aquele período.
O técnico em edificações Eduardo foi ao ato com o filho, Declan, e defendeu democracia, educação e pensamento crítico, contrapondo a importância dos livros ao perigo das armas. Já o músico Nelson Coelho de Castro afirmou que o país atravessava um momento decisivo e relacionou a disputa à preservação da soberania nacional.


